Eu já morava em Perth, na Austrália, quando minha amiga Aline entrou em contato para tirar dúvidas sobre a vida na cidade. A coincidência era enorme. Uma startup sediada em Perth, havia lhe oferecido uma vaga como cientista e, junto com a contratação, veio a possibilidade de conquistar a residência permanente por meio do visto de Talento Global.
A Dra. Aline Martins havia trabalhado no mesmo laboratório que eu, na Universidade de São Paulo, alguns anos antes. Naquele momento, nossas histórias começavam a se cruzar novamente.
Mas o que mais tínhamos em comum? Nenhuma de nós havia planejado morar na Austrália. Na verdade, jamais imaginamos que a formação acadêmica e a experiência em pesquisa científica desenvolvidas no Brasil poderiam abrir portas para uma carreira internacional e, eventualmente, para a cidadania australiana.
Criado em 2019, o Global Talent Visa surgiu como uma estratégia do governo australiano para atrair profissionais altamente qualificados capazes de contribuir para a inovação, a ciência, a tecnologia e o desenvolvimento econômico do país. O programa oferece um caminho acelerado para a residência permanente e se diferencia de outros vistos profissionais por não exigir longos processos de revalidação de diplomas. Em vez disso, a avaliação é baseada principalmente na trajetória profissional, nas conquistas alcançadas e no reconhecimento nacional e internacional do candidato. Outro aspecto importante é a necessidade de uma indicação (nomination) por um cidadão australiano, residente permanente ou organização australiana com reconhecida reputação na área de atuação do candidato. Essa indicação serve para validar o impacto e o potencial das contribuições do profissional para a Austrália.
Em dezembro de 2024, o programa foi reformulado e passou a se chamar National Innovation Visa (NIV). A mudança reforçou o interesse do governo australiano em atrair talentos capazes de transformar conhecimento e inovação em resultados concretos para o país. Embora algumas regras tenham sido atualizadas, o objetivo permanece o mesmo: identificar profissionais com histórico de excelência e potencial para contribuir significativamente para o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico da Austrália.
Quando fui contratada pela Curtin University, após um período como pesquisadora na University of Sydney, ouvi falar desse visto pela primeira vez. Na época, meu gerente reconheceu o potencial da minha trajetória profissional e me nominou para o programa. Pouco tempo depois, conquistei a tão sonhada residência permanente na Austrália.
Uma das grandes vantagens do visto era que ele também se estendia aos dependentes do candidato principal. Por isso, meu parceiro, Diego Souza, que também atua como pesquisador, recebeu a residência permanente junto comigo e, posteriormente, conquistamos a cidadania australiana.
A trajetória da Dra. Aline Martins foi diferente, mas igualmente inspiradora. Ela estava trabalhando como professora universitária no Brasil quando foi recrutada por uma startup australiana sediada em Perth. A empresa reconheceu sua experiência científica, seu histórico de pesquisa e seu potencial de contribuição para o país. Como resultado, ela foi nominada para o visto e chegou à Austrália já com a residência permanente aprovada e uma nova vida pronta para começar do outro lado do mundo.
E nossas histórias estão longe de ser casos isolados.
Outra grande amiga, a Dra. Julia Ciarlini, que conheci durante meu período na University of Sydney, também foi contemplada pelo programa graças ao destaque conquistado durante seu doutorado em Engenharia Química naquela universidade.
Na área da saúde, pesquisadores brasileiros também vêm ganhando reconhecimento internacional. É o caso do Dr. Ary Serpa Neto, médico e pesquisador da Monash University, conhecido mundialmente por sua atuação em pesquisa clínica e terapia intensiva.
Na área da microbiologia, a Dra. Bruna Durante, atualmente pesquisadora da University of Queensland, também conquistou o visto voltado à atração de talentos internacionais.
Embora eu não tenha encontrado dados públicos consolidados sobre quantos cientistas brasileiros obtiveram residência permanente na Austrália por meio do Global Talent Visa, apenas no meu círculo de conhecidos existe um número considerável de pesquisadores contemplados pelo programa. Se eu fosse contar a trajetória de cada um deles, este texto seria enorme.
O que todos nós temos em comum é algo simples e, ao mesmo tempo, poderoso: nossas bases educacionais foram construídas no Brasil.
A Dra. Aline Martins é formada em Biologia pela Universidade Metodista de São Paulo, com mestrado, doutorado e pós-doutorado realizados na Universidade de São Paulo. Ao longo de mais de vinte anos de atuação em biotecnologia e ensino superior, liderou diversas expedições científicas para a Antártica e construiu uma carreira marcada pela pesquisa e pela formação de novos profissionais.
Sua trajetória chamou a atenção de uma empresa australiana sediada em Perth, que não apenas a contratou como cientista, mas também a nominou para o visto de Talento Global enquanto ela ainda vivia no Brasil.
A Dra. Julia Ciarlini iniciou sua formação em Engenharia Química na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e concluiu o mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina. Durante o doutorado na University of Sydney, destacou-se por suas pesquisas na área de tratamento de efluentes industriais. O reconhecimento conquistado ao longo dessa trajetória a levou à obtenção do visto de Talento Global. Hoje, ela atua como engenheira de Pesquisa e Desenvolvimento em uma startup australiana.
O Dr. Ary Serpa Neto é médico formado pela Faculdade de Medicina do ABC, com especialização em Clínica Médica e Medicina Intensiva. Possui mestrado pela mesma instituição, doutorado pela Universidade de São Paulo e PhD cum laude em Medicina Intensiva pela Universidade de Amsterdam, na Holanda.
Atualmente, atua como pesquisador e professor na Monash University e na University of Melbourne, além de liderar pesquisas em terapia intensiva no Austin Health. Sua carreira é marcada pela participação em estudos internacionais de grande impacto na área da saúde, especialmente em medicina intensiva, ventilação mecânica e ensaios clínicos.
Seu reconhecimento científico internacional levou à nominação para o visto Global Talent com apoio da Monash University. Um aspecto interessante de sua trajetória é que a residência permanente foi conquistada com base em sua excelência como pesquisador, sem a necessidade de passar previamente pelo longo processo de validação profissional exigido para médicos que buscam migrar para a Austrália por meio das vias tradicionais relacionadas ao exercício da medicina. Posteriormente, ele também concluiu as etapas necessárias para atuar clinicamente no país.
A Dra. Bruna Durante é bacharel em Biotecnologia pela Universidade Federal de Alfenas, com mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo. Após concluir o doutorado, conquistou uma bolsa de liderança na University of Queensland, onde desenvolveu parte de sua trajetória internacional. Posteriormente, foi contratada pela Western Sydney University e, com base em seu histórico acadêmico e científico, foi nominada para o visto de Talento Global. Atualmente, atua na University of Queensland, desenvolvendo pesquisas na área de microbiologia aplicada à agricultura.
A minha trajetória começou na Universidade Federal do Maranhão, onde realizei a graduação e o mestrado em Química. Em seguida, concluí o doutorado na Unicamp e o pós-doutorado na Universidade de São Paulo. Minha carreira internacional teve início quando fui contratada como pesquisadora na University of Sydney e, posteriormente, na Curtin University, onde fui nominada para o Global Talent Visa.
Hoje lidero projetos de pesquisa e desenvolvimento voltados a materiais e tecnologias para armazenamento de energia em uma startup australiana. Também sou fundadora da They Science, empresa dedicada ao apoio de cientistas brasileiros em suas trajetórias acadêmicas e profissionais.
Olhando para todas essas trajetórias, algo que chama atenção é que pesquisadores brasileiros, muitos deles formados em universidades públicas, têm produzido conhecimento competitivo em nível global e sido reconhecidos internacionalmente por isso.
Nenhum de nós saiu do Brasil carregando riqueza ou influência. O que atravessou oceanos conosco foi o conhecimento. Um conhecimento construído em escolas, universidades e centros de pesquisa brasileiros. E talvez essa seja a prova mais silenciosa, e também a mais poderosa, da força da ciência e da educação no nosso país.
Muitos brasileiros ainda carregam o chamado complexo de vira-lata, acreditando que nada do que é produzido no Brasil tem valor ou qualidade. No entanto, histórias como essas mostram exatamente o contrário. Temos universidades de excelência, pesquisadores talentosos e uma capacidade enorme de formar profissionais que competem em nível internacional.
Embora muitas pessoas enxerguem trajetórias como as nossas como uma fuga de cérebros, eu prefiro vê-las como uma internacionalização de talentos. A ciência não conhece fronteiras. O conhecimento produzido por um pesquisador brasileiro na Austrália, ou em qualquer outro lugar do mundo continua contribuindo para o avanço da sociedade como um todo.
Hoje, muitos de nós já somos cidadãos australianos. Mas, antes de qualquer nacionalidade, somos cientistas. E a ciência é, por natureza, uma construção coletiva e global.
Em breve, publicarei outro texto contando a história de cientistas brasileiros que conquistaram a residência permanente na Austrália por meio de outra modalidade de imigração qualificada, o Skilled Visa. Aguarde.
Dra Adriana Pires Vieira
Fundadora da They Science
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